‘Stranger Things’: o significado histórico de Prince na trilha do final

Analisamos como o sucesso de Kate Bush abriu as portas para que os irmãos Duffer conseguissem o impossível: licenciar clássicos de Prince para o final de ‘Stranger Things’. Entenda o significado apocalíptico de ‘Purple Rain’ e como a trilha sonora define o desfecho da série.

Existe um tipo de conquista na indústria do entretenimento que vai além de orçamentos milionários. É a vitória que depende de legado e de provar que você entende o peso do que está pedindo. Os irmãos Duffer alcançaram o ápice dessa credibilidade ao convencerem o espólio de Prince a liberar ‘When Doves Cry’ e ‘Purple Rain’ para o final de ‘Stranger Things’ — algo que o artista, em vida, raramente permitiu para produções de terceiros.

A trilha sonora Stranger Things nunca foi apenas um acessório nostálgico; ela atua como motor narrativo. Se em 2022 o fenômeno Kate Bush provou que a série poderia ditar o zeitgeist musical, a inclusão de Prince na quinta temporada eleva o status da obra para uma curadoria histórica. Não se trata apenas de pagar pelos direitos, mas de receber a ‘benção’ de um dos catálogos mais protegidos da música mundial.

O ‘não’ como regra: a barreira intransponível de Prince

O 'não' como regra: a barreira intransponível de Prince

Durante décadas, Prince manteve um controle férreo sobre sua obra. Sua filosofia era clara: a música não deveria servir de pano de fundo para visões alheias. Salvo raras exceções, como sua participação em ‘New Girl’ (onde ele controlava a própria imagem), o licenciamento para TV era praticamente nulo. Após sua morte em 2016, o espólio manteve essa postura defensiva, especialmente com o álbum Purple Rain.

Matt Duffer admitiu que o pedido foi feito sob um ceticismo saudável: ‘Nos disseram que era uma chance remota’. O que mudou o jogo não foi o valor do cheque, mas o ‘case’ Kate Bush. O espólio viu como ‘Running Up That Hill’ não foi apenas usada, mas recontextualizada com reverência, apresentando uma artista complexa para uma geração que consome música via TikTok, mas busca profundidade.

O efeito dominó: de Kate Bush ao topo das paradas

Ross Duffer foi direto ao ponto: ‘Graças a Kate Bush, conseguimos Prince’. Essa afirmação revela como o sucesso da quarta temporada serviu de portfólio. O espólio entendeu que ‘Stranger Things’ não é um produto que ‘gasta’ a música, mas que a imortaliza em novos contextos emocionais. A série provou ser capaz de tratar clássicos dos anos 80 não como easter eggs descartáveis, mas como o próprio tecido da cena.

Análise técnica: ‘When Doves Cry’ e a euforia do alívio

Análise técnica: 'When Doves Cry' e a euforia do alívio

No episódio final, a transição musical é cirúrgica. ‘When Doves Cry’ surge como um needle drop diegético (ouvido pelos personagens) quando Murray Bauman coloca o disco para tocar. A batida seca e a ausência de linha de baixo — uma inovação técnica de Prince em 1984 — criam um contraste imediato com o som denso e sintetizado do Mundo Invertido.

A música pontua a saída do grupo do cenário de pesadelo. É uma escolha que celebra a sobrevivência através do ritmo. No entanto, os Duffer usam a estrutura da canção para enganar o espectador: a euforia é interrompida pela realidade militar em Hawkins, preparando o terreno para o golpe emocional seguinte.

O significado apocalíptico de ‘Purple Rain’ no arco de Eleven

O uso de ‘Purple Rain’ na montagem de sacrifício de Eleven é o momento mais ambicioso da série. Para o espectador casual, é uma balada emocionante; para quem conhece a fundo a obra de Prince, o significado é mais sombrio. O próprio Prince explicou, em entrevistas, que ‘Purple Rain’ simboliza o fim do mundo — o céu ficando roxo (mistura de sangue e céu azul) durante o apocalipse.

Ao sobrepor essa canção ao colapso do Mundo Invertido e ao destino incerto de El, a série resgata o sentido original da letra. Não é apenas uma despedida de Mike; é a trilha sonora de um mundo acabando para que outro possa renascer. A mixagem de som aqui dá prioridade ao solo de guitarra final, que substitui os diálogos, permitindo que a performance física de Millie Bobby Brown e a carga histórica da música carreguem todo o peso dramático.

Um novo padrão para trilhas sonoras na TV

Ao garantir Prince, ‘Stranger Things’ encerra seu ciclo estabelecendo um novo padrão de prestígio. A série deixa de ser apenas uma homenagem aos anos 80 para se tornar o museu definitivo da cultura pop daquela década. Se você sentiu que ‘Purple Rain’ deu ao final uma magnitude quase cinematográfica, não foi por acaso: foi o resultado de anos construindo a confiança necessária para manusear as ‘joias da coroa’ da música moderna.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre a trilha de ‘Stranger Things’

Quais músicas do Prince tocam no final de ‘Stranger Things’?

As músicas utilizadas no episódio final da 5ª temporada são ‘When Doves Cry’ e ‘Purple Rain’, ambas do icônico álbum de 1984.

Por que foi difícil conseguir os direitos de Prince?

Prince era conhecido por raramente autorizar o uso de sua música em filmes ou séries, priorizando o controle total sobre sua obra. O espólio do cantor só liberou as faixas após ver o tratamento respeitoso dado à música de Kate Bush na temporada anterior.

Qual o significado de ‘Purple Rain’ na cena de Eleven?

Além da carga emocional, a música faz referência ao ‘fim do mundo’ (o céu roxo do apocalipse), o que espelha o colapso do Mundo Invertido e o sacrifício final da protagonista.

Onde posso ouvir a trilha sonora completa de ‘Stranger Things’?

A trilha sonora oficial, incluindo as músicas licenciadas e a trilha original de Kyle Dixon & Michael Stein, está disponível em plataformas como Spotify, Apple Music e Deezer.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também