‘Remember’: O dia em que ‘The Walking Dead’ deixou de ser sobre sobrevivência

Analisamos como o episódio ‘Remember’ marcou a transição definitiva de ‘The Walking Dead’ de um horror de sobrevivência para um drama político. Entenda o impacto da chegada a Alexandria e como isso mudou o DNA da série para sempre.

Existe um momento em toda série de longa duração em que ela decide o que quer ser quando crescer. Para ‘The Walking Dead’ Alexandria representa exatamente esse ponto de virada — e ‘Remember’, o episódio que introduz essa comunidade, é simultaneamente um dos melhores da série e o início de uma transição que alterou permanentemente a relação do público com a obra.

Não se trata apenas de qualidade técnica, embora ‘Remember’ seja esteticamente superior a boa parte da quinta temporada. Trata-se de uma mudança radical de DNA. A partir do momento em que Rick Grimes atravessa os portões de Alexandria e encontra água encanada, casas intactas e pessoas que ainda se preocupam com cortes de cabelo, o show deixa de ser um survival horror visceral para se tornar um drama político de facções.

A estética do ‘feral’ contra a civilização

A estética do 'feral' contra a civilização

Para entender o impacto de ‘Remember’, é preciso observar a construção visual de Rick Grimes até aquele ponto. Ele estava no estado que os roteiristas chamavam de ‘Rick feral’ — barbudo, coberto de fuligem e sangue seco, movendo-se com a hesitação de um animal caçado. A direção de Greg Nicotero enfatiza isso através de close-ups desconfortáveis que capturam a desconfiança absoluta em seus olhos.

A cena da entrevista entre Rick e Deanna Monroe (interpretada com uma sobriedade fascinante por Tovah Feldshuh) é o ponto alto do episódio. O uso de uma câmera de vídeo portátil dentro da cena — criando uma estética de found footage dentro da narrativa — serve para destacar o quão ‘alienígena’ aquele grupo de sobreviventes parece em um ambiente civilizado. Rick não está apenas sendo entrevistado; ele está sendo estudado como uma espécie perigosa introduzida em um ecossistema frágil.

O ritual da barba e a perda da ‘pele’ selvagem

Uma das cenas mais icônicas de ‘Remember’ é Rick raspando a barba. Pode parecer um detalhe trivial, mas é um ritual de despojamento. Ao remover a ‘máscara’ do sobrevivente da estrada, Rick tenta reencontrar o xerife, o homem da lei, o pai de família. No entanto, a genialidade da atuação de Andrew Lincoln está em mostrar que, sob a pele limpa, o monstro ainda está lá.

O contraste sonoro também é fundamental aqui. ‘The Walking Dead’ sempre foi uma série barulhenta — gritos, tiros, o som constante de crânios sendo esmagados. Em Alexandria, o silêncio é o que aterroriza. O som de um aspirador de pó ou de crianças brincando ao longe soa mais sinistro para o grupo do que o rosnado de um walker. É a primeira vez que a série utiliza a normalidade como elemento de horror psicológico.

A mudança de DNA: do terror para a geopolítica

A mudança de DNA: do terror para a geopolítica

É aqui que ‘Remember’ divide as águas. Antes de Alexandria, o conflito era simples: como não morrer hoje. A tensão vinha da escassez. Depois deste episódio, a série iniciou sua transição para o que eu chamo de ‘Monopoly Pós-Apocalíptico’.

Com a introdução de comunidades estáveis, os walkers — que eram a ameaça existencial definidora — foram rebaixados a figurantes de cenário ou obstáculos de logística. O foco mudou para a reconstrução da sociedade e, consequentemente, para a guerra por territórios. Saímos de uma narrativa inspirada em ‘A Noite dos Mortos-Vivos’ para algo que tentava mimetizar a complexidade política de ‘Game of Thrones’.

  • Pré-Alexandria: Foco no indivíduo, moralidade cinzenta, horror de sobrevivência.
  • Pós-Alexandria: Foco no coletivo, ideologias conflitantes, drama de guerra entre facções.

O legado contraditório de Alexandria

Embora tenha trazido fôlego narrativo e permitido a introdução de vilões icônicos como Negan, essa mudança sacrificou a intimidade. Aquela sensação de desespero absoluto — o grupo dormindo em carros abandonados sem saber se haveria um amanhã — praticamente desapareceu. Alexandria ofereceu segurança demais para os personagens e, talvez, conforto demais para o roteiro.

Para quem busca o terror visceral das primeiras temporadas, ‘Remember’ é o início do fim. Para quem prefere a expansão de mundo e o estudo de como sociedades se formam e colidem, é o verdadeiro começo da série. O fato é que ‘The Walking Dead’ nunca mais conseguiu (ou quis) voltar a ser aquela pequena história sobre um grupo de estranhos perdidos na floresta. Em Alexandria, a série encontrou um lar, mas perdeu sua alma selvagem.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Walking Dead’ e Alexandria

Em qual episódio o grupo do Rick chega em Alexandria?

O grupo chega oficialmente aos portões de Alexandria no final do episódio 11 da 5ª temporada (‘The Distance’), mas a exploração da comunidade e a integração ocorrem no episódio 12, intitulado ‘Remember’.

Quem era a líder de Alexandria quando o grupo chegou?

A líder era Deanna Monroe, uma ex-congressista de Ohio que ajudou a transformar a área de segurança em uma comunidade autossustentável.

Por que a chegada a Alexandria é considerada um ponto de virada?

Porque mudou o foco da série. Antes, o objetivo era a sobrevivência nômade e a busca por recursos básicos. A partir de Alexandria, a série passou a focar na reconstrução da civilização, política entre comunidades e guerras territoriais.

Alexandria existe na vida real?

Na ficção, a comunidade fica na Virgínia. Na vida real, as filmagens de Alexandria ocorreram em um bairro real chamado Gin Property em Senoia, Geórgia, onde muros de metal foram construídos ao redor de casas habitadas para o cenário.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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