Analisamos por que ‘Custe o que Custar’ se destaca como a melhor adaptação de Harlan Coben na Netflix em anos. Com uma atuação visceral de James Nesbitt e um ritmo que evita as barrigas narrativas típicas do gênero, a série é o suspense de conforto definitivo para 2026.
Harlan Coben transformou-se em uma espécie de algoritmo humano para o streaming. A Netflix já adaptou tantas obras do autor que as produções começaram a se fundir em um borrão de subúrbios ingleses e segredos do passado. No entanto, ‘Custe o que Custar’ Netflix (Run Away), lançada neste início de 2026, consegue algo raro: resgatar a urgência que parecia ter se dissipado em adaptações mais burocráticas como ‘Lazarus’.
Após maratonar os oito episódios, fica claro que não estamos diante de uma revolução na linguagem do suspense, mas sim de uma execução técnica impecável. A série entende que o espectador de Coben não busca o novo, mas sim o conforto de um mistério bem amarrado que respeita sua inteligência sem exigir um esforço hercúleo de suspensão de descrença.
O efeito dominó: por que a premissa de Coben ainda morde
A história de Simon Greene (James Nesbitt) segue o arquétipo clássico do autor: o homem comum jogado em um redemoinho de caos. O desaparecimento de sua filha, Paige, e o reencontro em um cenário de degradação urbana no primeiro episódio, servem como um gatilho emocional potente. A cena no parque, onde a câmera evita o melodrama barato e foca na reação contida e devastada de Nesbitt, define o tom da série.
Diferente de ‘A Grande Ilusão’, que perdia tempo com tramas paralelas de gosto duvidoso, ‘Custe o que Custar’ opera em um efeito dominó linear. Cada descoberta de Simon no submundo das drogas parece uma consequência lógica, e não um deus ex machina roteirístico. O roteiro de Danny Brocklehurst (colaborador habitual de Coben) está mais afiado aqui, podando as gorduras narrativas que costumam inflar as séries de oito episódios.
James Nesbitt e a anatomia do desespero contido
James Nesbitt já é veterano no ‘Coben-verso’, mas aqui ele entrega uma nuance diferente de ‘Fique Comigo’. Há uma fadiga em seu olhar que vende a ideia de um pai que já tentou de tudo. A química — ou a falta dela, propositalmente — com Minnie Driver cria uma dinâmica familiar desconfortável que serve como âncora emocional para o mistério. Driver, inclusive, traz uma sobriedade necessária, evitando que a série vire apenas um thriller de perseguição.
Vale destacar a performance de Alfred Enoch. Ele consegue se desvencilhar finalmente da sombra de papéis juvenis para entregar um personagem ambíguo, cujas motivações são o verdadeiro motor de tensão da metade final da temporada. A direção de fotografia opta por tons mais frios e uma iluminação naturalista, o que ajuda a distanciar a série daquele visual ‘limpo demais’ de ‘Safe’.
Por que este é o binge-watch ideal (e superior aos anteriores)
O grande triunfo de ‘Custe o que Custar’ sobre ‘A Grande Ilusão’ ou ‘Fique Comigo’ é o ritmo. As séries de Coben frequentemente sofrem com o ‘problema do quinto episódio’ — aquele momento em que a trama patina para preencher o tempo de contrato com a plataforma. Aqui, a montagem é mais agressiva. Os ganchos de final de episódio não são apenas choques gratuitos; eles recontextualizam o que acabamos de ver.
A crítica pode apontar a previsibilidade de certas batidas narrativas, e com razão. Se você já leu o livro ou viu mais de três adaptações do autor, vai identificar os padrões. Mas o valor aqui está na jornada. É um suspense de ‘conforto’, feito para ser consumido sem interrupções, ideal para um fim de semana onde a única meta é descobrir quem está mentindo.
Veredito: Para quem é a série?
Se você busca uma desconstrução do gênero como ‘The Killer’ de Fincher, passe longe. ‘Custe o que Custar’ é entretenimento de gênero puro. É recomendada para quem aprecia a estrutura britânica de mistério policial e para quem sentia falta de uma história onde o emocional dos personagens pesa tanto quanto a resolução do crime. É, sem dúvida, a adaptação mais equilibrada de Coben desde ‘Não Fale com Estranhos’.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Custe o que Custar’
‘Custe o que Custar’ é baseada em qual livro de Harlan Coben?
A série é baseada no best-seller ‘Run Away’ (publicado no Brasil como ‘Custe o que Custar’), lançado por Harlan Coben em 2019.
Quantos episódios tem a série ‘Custe o que Custar’ na Netflix?
A primeira temporada conta com 8 episódios, cada um com duração média de 45 a 50 minutos, seguindo o padrão das outras produções do autor na plataforma.
Preciso assistir a outras séries de Harlan Coben antes desta?
Não. Embora compartilhem o mesmo estilo e alguns membros da equipe técnica, as histórias de Harlan Coben na Netflix são independentes (antologias) e não possuem conexão narrativa entre si.
Onde a série foi filmada?
Diferente do livro, que se passa majoritariamente nos EUA, a adaptação da Netflix foi filmada no Reino Unido, principalmente em Manchester e arredores, mantendo a estética britânica das produções anteriores do autor.
‘Custe o que Custar’ terá 2ª temporada?
Como a maioria das adaptações de Coben, a série foi concebida como uma minissérie de história fechada. Até o momento, não há planos para uma continuação, já que o arco principal é totalmente resolvido no final.

