‘We Bury the Dead’: Daisy Ridley brilha, mas público rejeita o ‘terror de luto’

Analisamos o abismo entre críticos e público em ‘We Bury the Dead’, onde Daisy Ridley entrega sua atuação mais visceral. Entenda por que este ‘terror de luto’ australiano é uma obra-prima incompreendida que subverte todas as regras do gênero zumbi.

Existe uma dissonância cognitiva que ocorre quando o marketing de um filme vende um produto e o diretor entrega uma obra de arte. ‘We Bury the Dead’ Daisy Ridley protagoniza é o mais novo exemplo desse abismo. Enquanto os trailers sugeriam um frenesi de sobrevivência contra mortos-vivos nas paisagens áridas da Austrália, o que o diretor Zak Hilditch (‘These Final Hours’) entrega é uma elegia fúnebre disfarçada de filme de gênero.

Com 84% de aprovação da crítica e uma nota de público que amarga os 47% no Rotten Tomatoes, o longa expõe a resistência de parte da audiência ao chamado ‘terror de luto’. Mas, para quem busca substância além do gore, essa rejeição é, na verdade, um selo de qualidade.

O silêncio ensurdecedor de um apocalipse íntimo

O silêncio ensurdecedor de um apocalipse íntimo

Esqueça as hordas velozes de ‘Guerra Mundial Z’ ou a carnificina estilizada de Zack Snyder. Em ‘We Bury the Dead’, o apocalipse é burocrático e silencioso. A trama acompanha Ava (Ridley), uma mulher que se junta a uma unidade de recuperação de corpos após um experimento militar devastar o interior da Austrália. O objetivo dela não é salvar o mundo, mas encontrar o corpo do marido para poder, enfim, começar a sofrer.

A escolha de Hilditch pela contenção é radical. A fotografia de Bonnie Elliott explora o vazio das locações em Albany com uma paleta dessaturada, transformando a busca de Ava em uma descida ao purgatório. Quando os mortos finalmente se levantam, eles não o fazem com um rugido, mas com uma passividade perturbadora que ecoa o peso psicológico da perda.

A maturidade dramática de Daisy Ridley

Após anos sob a sombra da franquia ‘Star Wars’, Ridley parece ter finalmente decifrado como usar sua expressividade. Se em ‘A Jovem e o Mar’ ela brilhou pelo esforço físico, aqui o triunfo é interno. Sua Ava é uma personagem definida pelo que ela não diz. Há uma cena específica, envolvendo a triagem de pertences pessoais em um acampamento improvisado, onde Ridley comunica mais com o tremor das mãos do que muitos atores em monólogos inteiros.

É uma performance que dialoga com o que Toni Collette fez em ‘Hereditário’ ou Essie Davis em ‘Babadook’. Ridley não está preocupada em ser a heroína de ação; ela está ocupada demais tentando não desmoronar sob o peso de cadáveres que, ironicamente, têm mais paz do que ela.

Por que a rejeição do público é um erro de expectativa

Por que a rejeição do público é um erro de expectativa

A discrepância nos scores do Rotten Tomatoes não é um reflexo da qualidade do filme, mas de um marketing que falhou em gerenciar expectativas. O público que deu 47% de aprovação provavelmente esperava jump scares e munição infinita. Ao receber uma meditação sobre a permanência da dor, sentiu-se traído.

Historicamente, a carreira de Ridley tem sido uma gangorra de recepção: ‘A Filha do Rei do Pântano’ (40% críticos / 74% público) e ‘Cleaner’ (51% / 66%) mostram que, quando ela entrega o convencional, o público a abraça. Ao escolher ‘We Bury the Dead’, ela optou pelo risco artístico. A crítica, saturada de fórmulas repetitivas, valorizou a subversão de Hilditch. O público, buscando escapismo, encontrou um espelho para seus próprios traumas.

Veredito: Para quem é este filme?

Se você aprecia o terror que se infiltra sob a pele e permanece lá por dias, ‘We Bury the Dead’ é essencial. É um filme que exige paciência e estômago — não pelo sangue, mas pela tristeza. Zak Hilditch reafirma sua posição como um dos diretores de gênero mais interessantes da atualidade, e Daisy Ridley prova que sua carreira está apenas começando a ficar interessante.

O filme abre o calendário de 2026 lembrando que o cinema de horror ainda é o melhor veículo para explorar as partes de nós que preferíamos deixar enterradas.

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Perguntas Frequentes sobre ‘We Bury the Dead’

‘We Bury the Dead’ é um filme de zumbi tradicional?

Não. Embora utilize a premissa de mortos que retornam à vida, o filme é um drama psicológico focado no luto e na perda, com ritmo lento e poucas cenas de ação, seguindo a linha do ‘terror elevado’.

Onde foi filmado ‘We Bury the Dead’?

O longa foi filmado inteiramente na Austrália Ocidental, principalmente na região de Albany, cujas paisagens isoladas contribuem para o tom melancólico e desolador da narrativa.

Onde assistir ao filme com Daisy Ridley?

Após estrear no festival SXSW, ‘We Bury the Dead’ chegou aos cinemas brasileiros em janeiro de 2026. Em breve, deve integrar o catálogo de plataformas de streaming sob demanda.

Qual a classificação indicativa de ‘We Bury the Dead’?

O filme tem classificação indicativa de 16 anos, devido a temas perturbadores, violência gráfica pontual e situações de forte impacto emocional.

Quem dirige ‘We Bury the Dead’?

O filme é dirigido pelo australiano Zak Hilditch, conhecido por outros sucessos do gênero como ‘These Final Hours’ e a adaptação de Stephen King para a Netflix, ‘1922’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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