‘Warrior’: o épico de artes marciais que resgatou o legado perdido de Bruce Lee

Analisamos como ‘Warrior’ resgatou o roteiro perdido de Bruce Lee para criar o melhor drama de artes marciais da atualidade. Entenda a conexão com ‘Banshee’, a técnica por trás das coreografias de Andrew Koji e por que a série se tornou um fenômeno de audiência na Netflix após ser cancelada.

Existe um tipo de reparação histórica que só o tempo e a persistência permitem: quando uma ideia rejeitada por ser ‘ousada demais’ ressurge décadas depois para provar que o visionário original estava certo. ‘Warrior’ série Bruce Lee não é apenas entretenimento; é o resgate de um manuscrito que Hollywood tentou enterrar em 1969 por não acreditar que um protagonista asiático sustentaria uma audiência ocidental.

Mas não se engane: a produção não vive apenas de nostalgia ou reverência póstuma. Ao unir o DNA de Bruce Lee à crueza narrativa de Jonathan Tropper (o criador de ‘Banshee’), a série entregou três temporadas de uma brutalidade sofisticada, transformando o San Francisco do século XIX em um tabuleiro de xadrez onde o sangue é a única moeda que não desvaloriza.

A vingança de Shannon Lee: Do roteiro recusado ao topo do streaming

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No final dos anos 60, Bruce Lee apresentou um conceito revolucionário: um artista marcial chinês navegando o submundo do Velho Oeste. O projeto foi engavetado, e pouco depois surgiu ‘Kung Fu’, protagonizado por David Carradine — um ator branco. A ferida dessa apropriação só começou a fechar quando Shannon Lee, filha de Bruce, encontrou as anotações originais do pai.

A parceria com Jonathan Tropper foi o que impediu a série de se tornar um documentário reverencial e engessado. Tropper trouxe para Chinatown a mesma energia visceral de ‘Banshee’. O resultado é uma narrativa que preserva os temas de Lee — identidade e o custo da assimilação — mas os embala em uma estrutura de drama criminal que não deve nada a produções como ‘Peaky Blinders’.

Chinatown em chamas: O realismo sujo das Guerras Tong

A ambientação durante as Guerras Tong não é mero cenário. A série utiliza o conflito entre as organizações criminosas chinesas para explorar uma ferida aberta na história americana: o racismo institucionalizado que culminou na Lei de Exclusão Chinesa. Ah Sahm (Andrew Koji) não é um herói imaculado; ele é um executor da Hop Wei, movido por uma busca pessoal que o força a ser a marreta de uma organização implacável.

A fotografia de ‘Warrior’ merece destaque técnico. Há um contraste deliberado entre a opulência estéril das mansões de Nob Hill e o lodo claustrofóbico de Chinatown. A câmera raramente se afasta do chão, forçando o espectador a sentir a sujeira e o perigo de cada beco. O trabalho de Andrew Koji é magnético — ele incorpora os maneirismos de Bruce Lee (o toque no nariz, a fluidez lateral) sem cair na caricatura, criando um guerreiro que carrega o peso do mundo nos ombros.

Jeet Kune Do na tela: Por que a coreografia aqui é superior

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Diferente de muitas séries que usam cortes rápidos para esconder a falta de técnica dos atores, ‘Warrior’ aposta em planos mais abertos e coreografias longas. A filosofia de Lee sobre o combate como expressão pessoal é o fio condutor. Repare na diferença técnica: Ah Sahm luta com a economia adaptável do Jeet Kune Do, enquanto Li Yong (Joe Taslim) utiliza uma precisão tradicional e devastadora.

Um momento que define a série é o quinto episódio da primeira temporada, ‘The Blood and the Sh*t’. É um episódio isolado, uma homenagem clara aos Westerns de Sergio Leone, onde Ah Sahm e Young Jun ficam presos em um saloon no meio do deserto. A coreografia nessa sequência é uma aula de uso de cenário: garrafas, mesas e o próprio espaço confinado tornam-se extensões dos lutadores. É aqui que ‘Warrior’ prova que entende o gênero como poucas produções na história da TV.

O limbo da Netflix e o futuro da franquia

O cancelamento de ‘Warrior’ pela Max em 2023 foi um golpe puramente financeiro, fruto da fusão Warner-Discovery, e não um reflexo de sua qualidade. Com 92% de aprovação no Rotten Tomatoes, a série encontrou uma sobrevida na Netflix, onde figurou no Top 10 de diversos países. Esse fenômeno de ‘ressurreição por streaming’ mantém viva a esperança de uma quarta temporada, embora nada tenha sido confirmado.

As três temporadas disponíveis encerram um arco poderoso, mas deixam ganchos políticos que imploram por resolução. Mesmo assim, o que temos é uma obra completa em sua tese: a de que a visão de Bruce Lee era, de fato, atemporal.

Para quem é (e para quem não é) ‘Warrior’

Se você busca um drama de época com substância política e coreografias de nível cinematográfico, esta é sua nova série favorita. É para quem aprecia a fusão de gêneros — o Noir encontra o Western e o Kung Fu.

No entanto, se você tem aversão a violência gráfica ou espera uma abordagem leve e familiar ao estilo ‘Cobra Kai’, talvez o impacto de ‘Warrior’ seja excessivo. A série é crua, sexualmente explícita e não poupa o espectador da realidade brutal da época. É um tributo digno ao homem que queria mostrar ao mundo que um protagonista asiático poderia ser, simultaneamente, um guerreiro implacável e um símbolo de resistência.

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Perguntas Frequentes sobre a série Warrior

Onde posso assistir à série ‘Warrior’?

Atualmente, as três temporadas de ‘Warrior’ estão disponíveis nos catálogos da Netflix e da Max (antiga HBO Max). A migração para a Netflix em 2024 impulsionou a popularidade da série globalmente.

‘Warrior’ terá uma 4ª temporada?

Até o momento, a série não foi oficialmente renovada para o quarto ano. Ela foi cancelada pela Max, mas o sucesso de audiência na Netflix gerou rumores sobre uma possível produção original da plataforma para continuar a história.

Qual é a relação real entre Bruce Lee e a série?

‘Warrior’ é baseada em um tratamento de oito páginas escrito por Bruce Lee em 1971. Sua filha, Shannon Lee, é produtora executiva e garantiu que a visão original do pai sobre as Guerras Tong e o preconceito racial fosse o cerne da narrativa.

A série ‘Warrior’ é baseada em fatos reais?

Sim, o contexto histórico é real. As Guerras Tong ocorreram em San Francisco no final do século XIX, envolvendo disputas sangrentas entre facções criminosas de Chinatown. Personagens como Ah Sahm são fictícios, mas o clima político e social é historicamente fundamentado.

Quem interpreta o protagonista Ah Sahm?

O protagonista é interpretado pelo ator britânico Andrew Koji. Ele realizou a maioria de suas próprias cenas de luta e estudou profundamente a filosofia de Bruce Lee para o papel.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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