Enquanto a Netflix luta para encontrar consistência no gênero, selecionamos 5 obras-primas de ficção científica que desafiam o algoritmo. De Del Toro a Linklater, analisamos os filmes que usam a tecnologia e o futuro para contar histórias profundamente humanas.
A Netflix enfrenta um dilema crônico com a ficção científica Netflix. Enquanto ‘Stranger Things’ se tornou um pilar cultural, os longas-metragens da plataforma frequentemente naufragam entre o esquecível e o derivativo. Projetos como ‘Rebel Moon’ e ‘The Electric State’ provaram que orçamentos astronômicos não compram alma narrativa. É o triunfo do algoritmo sobre a visão autoral.
No entanto, garimpando o catálogo, encontramos exceções que desafiam a média medíocre. Não são apenas “bons para passar o tempo”; são filmes que utilizam o gênero para investigar a condição humana com uma precisão que raramente vemos no mainstream. Abaixo, selecionamos cinco obras que elevam o padrão do streaming e justificam o rótulo de obra-prima.
‘Frankenstein’ (2025): A simbiose perfeita entre Del Toro e Mary Shelley
Guillermo del Toro passou décadas preparando sua versão de ‘Frankenstein’, e o resultado é uma peça de horror gótico e ficção científica especulativa que ignora os clichês de Hollywood. Aqui, o foco não é o choque do monstro, mas a tragédia da consciência indesejada. Oscar Isaac entrega um Victor Frankenstein cuja arrogância intelectual é mascarada por uma fragilidade patológica.
O grande trunfo, contudo, é Jacob Elordi. Sua Criatura abandona a rigidez de Boris Karloff para adotar uma expressividade física quase infantil e, por isso, aterrorizante. A fotografia de Dan Laustsen utiliza sombras expressionistas para transformar o laboratório de Victor em um purgatório visual. Em uma cena específica no segundo ato, o diálogo silencioso entre a Criatura e seu reflexo na água condensa mais filosofia sobre identidade do que dez temporadas de sci-fis genéricos.
‘Nimona’ (2023): O triunfo da estética sobre a convenção
Resgatado do cancelamento após o fechamento da Blue Sky pela Disney, ‘Nimona’ é um milagre narrativo. O filme estabelece um mundo “futurista-medieval” onde cavaleiros usam lasers e a tradição é protegida por tecnologia de vigilância. A dinâmica entre Ballister Boldheart (Riz Ahmed) e a metamorfa Nimona (Chloë Grace Moretz) é o coração pulsante da trama.
Tecnicamente, o filme impressiona pelo uso de cores saturadas e uma animação que mistura o 2D estilizado com a profundidade do 3D. Mas é a subversão do arquétipo do vilão que o torna essencial. ‘Nimona’ utiliza a ficção científica para falar sobre exclusão social e a percepção do “monstro” de forma visceral, culminando em um clímax que desafia a estrutura segura das animações contemporâneas.
‘Não Olhe para Cima’ (2021): O horror social disfarçado de sátira
Muitos críticos rotularam o filme de Adam McKay como óbvio, mas o tempo provou que sua obviedade era, na verdade, um reflexo preciso do colapso da comunicação moderna. ‘Não Olhe para Cima’ usa a premissa de um asteroide em rota de colisão com a Terra para dissecar como a ciência é sacrificada no altar do engajamento e do lucro político.
A performance de Leonardo DiCaprio, especialmente seu monólogo desesperado em rede nacional, é um dos pontos altos da carreira do ator. O filme não tenta ser sutil porque o cenário que ele descreve — a negação da realidade em favor de algoritmos de felicidade — não permite sutileza. O corte final, alternando entre o silêncio do espaço e o caos da futilidade humana, é uma das conclusões mais corajosas do cinema recente.
‘Ultraman: A Ascensão’ (2024): Uma reinvenção com alma indie
Esqueça o que você sabe sobre adaptações de heróis japoneses. ‘Ultraman: A Ascensão’ é um estudo de personagem sobre paternidade geracional disfarçado de filme de kaiju. Ken Sato não é apenas um herói; ele é um homem lidando com o abandono paterno enquanto é forçado a cuidar de um bebê monstro.
A estética da Industrial Light & Magic (ILM) é fenomenal, trazendo uma textura de pinceladas digitais que dá ao filme uma identidade única. O design de som, que contrasta os rugidos titânicos com os sons domésticos de um bebê, cria uma escala emocional raríssima em blockbusters. É um filme que entende que o espetáculo só importa se houver algo precioso em jogo no nível micro.
‘Apollo 10 ½’ (2022): A ficção científica como memória afetiva
Richard Linklater utiliza a técnica de rotoscopia para criar um dos filmes mais singulares da Netflix. ‘Apollo 10 ½’ é uma ficção científica invertida: a viagem à Lua é contada através da perspectiva de um garoto de 10 anos em Houston, 1969. A premissa de que ele foi recrutado pela NASA para uma missão secreta é, na verdade, uma metáfora para a imaginação infantil alimentada pela era espacial.
O filme é uma cápsula do tempo técnica. A animação sobreposta às filmagens reais dá uma qualidade onírica às cenas cotidianas — desde o cheiro de asfalto quente até o brilho das telas de TV de tubo. Linklater prova que a ficção científica não precisa de galáxias distantes para ser grandiosa; às vezes, o maior senso de maravilha está no quintal de casa, olhando para o céu durante o auge da Guerra Fria.
Por que estas obras sobrevivem ao algoritmo?
O sucesso desses cinco títulos reside na resistência à fórmula. Enquanto a maioria das produções de ficção científica Netflix tenta agradar a todos e acaba não dizendo nada, estes filmes possuem uma assinatura visual e temática clara. Eles não tratam o espectador como um dado estatístico, mas como alguém em busca de uma experiência cinematográfica genuína. Se você quer entender o potencial real do gênero no streaming, comece por aqui.
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Perguntas Frequentes sobre Ficção Científica na Netflix
Qual é a melhor ficção científica original da Netflix?
Embora subjetivo, ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro e ‘Apollo 10 ½’ são amplamente considerados os picos de qualidade artística da plataforma por suas visões autorais e execução técnica superior.
‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro já está disponível?
Sim, o filme estreou em 2025 após anos de desenvolvimento, tornando-se um dos maiores sucessos de crítica da Netflix no gênero sci-fi/horror.
O filme ‘Nimona’ é indicado para crianças?
Sim, ‘Nimona’ possui classificação indicativa de 10 anos. Ele aborda temas complexos como aceitação e identidade, mas de forma acessível e visualmente estimulante para o público jovem.
Por que ‘Não Olhe para Cima’ é considerado ficção científica?
O filme se enquadra no subgênero de ficção científica social e apocalíptica, utilizando um evento astronômico (a colisão de um cometa) para explorar as reações tecnológicas e sociológicas da humanidade.
O que é a técnica de rotoscopia usada em ‘Apollo 10 ½’?
É uma técnica onde os animadores desenham sobre os frames de filmagens live-action. Isso permite movimentos realistas com uma estética artística e onírica, ideal para o tom de nostalgia do filme.

