Undertone A24 usa o som como principal ferramenta de medo e transforma o luto real de Ian Tuason em horror doméstico. Esta análise explica por que o filme assusta mais pela escuta do que pela imagem e onde ele se destaca no terror da A24.
O terror mainstream tem um problema de volume. Quando falta mise-en-scène, sobe o acorde estridente; quando falta atmosfera, entra o jump scare. É por isso que ‘Undertone’ chega como antídoto. O filme constrói medo no que você ouve, mas não consegue localizar, e essa escolha não é truque: nasce da própria origem do projeto, pensado por Ian Tuason a partir do som antes mesmo da imagem. Com a chegada do Undertone A24 à HBO Max em 26 de junho, muita gente vai descobrir no sofá o que o filme já provou no circuito indie: às vezes, o barulho mais assustador é o que parece vir de dentro da casa.
A premissa já carrega um peso emocional que boa parte do horror sobrenatural trata como atalho. Evy, vivida por Nina Kiri, é apresentadora de um podcast cético sobre o paranormal e volta para a casa de infância para cuidar da mãe doente, interpretada por Michèle Duquet. No meio dessa rotina de exaustão e culpa, ela descobre que está grávida e, junto do co-host Justin, recebe uma série de arquivos de áudio sobre um casal à espera de um filho e aparentemente sitiado por uma presença demoníaca. O filme encontra aí seu eixo: não é só uma investigação de assombração, mas a colisão entre cuidado, maternidade e perda.
Por que o som em ‘Undertone’ assusta mais do que o monstro
Tuason começou o projeto como peça de rádio, e isso aparece em cada decisão de linguagem. Em vez de tratar o áudio como complemento, ‘Undertone’ faz dele o centro da experiência. Os arquivos recebidos por Evy não servem apenas para avançar a trama; eles contaminam o espaço ao redor dela. O espectador passa a ouvir a casa junto com a personagem, desconfiando de ruídos pequenos, pausas prolongadas e vozes que parecem ligeiramente fora do lugar.
Há um momento especialmente incômodo em que Jessa, a mulher dos áudios, canta canções de ninar ao contrário enquanto dorme. A cena funciona porque rompe algo íntimo e reconhecível. Não é só estranho; é errado num nível quase corporal. A escolha lembra um princípio básico do melhor terror sonoro: o medo não nasce do ruído alto, mas da distorção do familiar. Nesse sentido, o filme está menos interessado em exibir entidade do que em reorganizar a escuta do público. Depois de certo ponto, qualquer ranger de madeira parece mensagem cifrada.
Também ajuda o trabalho de mixagem, que evita saturação e prefere camadas. Silêncios longos, respirações, reverberações discretas e vozes comprimidas criam uma espacialidade opressiva. Em tela grande ou com fones bons, a sensação é física. Não é coincidência que o filme tenha funcionado tão bem entre espectadores que valorizam experiência auditiva: ‘Undertone’ pede atenção ativa, quase como se o público também estivesse investigando aqueles arquivos.
O trauma pessoal de Ian Tuason é o que dá peso ao horror
O ponto que realmente separa ‘Undertone’ de tanto terror de catálogo é a origem da história. Ian Tuason cuidou dos próprios pais durante o enfrentamento de câncer terminal, e o filme traduz essa vivência sem transformá-la em discurso de superação. O que aparece na tela é outra coisa: impotência, antecipação do luto, exaustão doméstica, a sensação de que a casa deixa de ser abrigo e vira espaço de vigília permanente.
Isso muda a leitura de várias cenas. Quando Evy cuida da mãe, o filme não está apenas isolando a protagonista, como tantos roteiros fazem para facilitar o terror. Está dramatizando um tipo de aprisionamento emocional que não tem nada de fantasioso. O sobrenatural entra por cima de uma dor já existente. É por isso que o filme nunca parece apenas brincar com culpa familiar; ele parte de uma experiência concreta de desgaste e medo.
Há ainda um detalhe decisivo para o E-E-A-T do artigo e para a força do longa: partes do filme foram gravadas na casa onde Tuason cresceu, em Rexdale, Toronto. Não é um cenário genérico vestido de memória. É memória de fato. Essa proximidade contamina a mise-en-scène com uma intimidade rara: corredores, quartos e objetos parecem carregados por uma história anterior à ficção. O espaço não funciona só como locação; funciona como arquivo emocional.
Gravidez e ceticismo: duas formas de perder o controle
O roteiro acerta ao cruzar o ceticismo profissional de Evy com a vulnerabilidade física e psíquica da gravidez. Como apresentadora de podcast, ela está acostumada a organizar o mundo pelo discurso, separar evidência de superstição, desmontar relatos frágeis. Só que o corpo grávido desestabiliza essa lógica de domínio. O desconhecido já não está apenas no áudio recebido; está nela.
O paralelo entre a gestação de Evy e a do casal dos clipes é mais que espelhamento temático. Tuason aproxima nascimento e ameaça, cuidado e contaminação, como se gerar vida também abrisse uma fresta para tudo aquilo que não se consegue controlar. O filme é eficaz justamente por não reduzir esse medo a alegoria óbvia. A presença demoníaca não substitui o drama humano; ela o amplifica.
Nina Kiri sustenta bem essa ambiguidade. Sua atuação evita o histrionismo comum do gênero e trabalha em registro contido, de cansaço acumulado. É uma escolha correta para um filme que depende menos de explosões emocionais e mais da sensação de que a personagem está operando no limite da vigília. Adam DiMarco, como Justin, funciona como contraponto racional, mas o longa sabe que a gravidade emocional está toda na relação entre Evy, a mãe e os arquivos de áudio.
Onde ‘Undertone’ se encaixa no terror da A24
Chamar ‘Undertone’ de terror da A24 já aciona um repertório: trauma familiar, atmosfera opressiva, horror menos interessado em sustos mecânicos do que em erosão emocional. O filme dialoga com essa linhagem, mas não se confunde com ela. Se muitos títulos do estúdio apostam em imagens fortes e simbolismo visual, aqui o diferencial está em levar a sério o áudio como motor dramático. É um horror mais próximo da tradição radiofônica e de certa sensibilidade de podcast narrativo do que do espetáculo imagético convencional.
Por isso, o sucesso comercial chama atenção. Feito com orçamento estimado em 500 mil dólares e com arrecadação global na casa dos 22 milhões, o longa virou prova de que ainda existe apetite por terror de conceito claro e execução rigorosa. Não porque o público tenha abandonado o jump scare, mas porque há saturação de filmes que confundem susto com impacto. ‘Undertone’ entende algo básico: agressão sonora não é o mesmo que tensão.
Se o título promete um terror que usa áudio e trauma real para assustar, ele entrega exatamente isso. O medo aqui não vem de um grande reveal visual nem de uma mitologia rebuscada. Vem de escutar uma voz no momento errado, de circular por uma casa impregnada de doença e memória, de perceber que o horror sobrenatural está encostado numa experiência muito concreta de luto antecipado.
Vale a pena ver? E para quem ‘Undertone’ funciona de verdade
Undertone A24 vale a pena sobretudo para quem gosta de terror psicológico, de ritmo paciente e de filmes que pedem escuta atenta. Se você prefere ameaça sugerida, ambiência e desconforto prolongado, há muito o que admirar aqui. Se sua expectativa é uma sucessão de sustos, criatura em quadro e catarse explosiva, a chance de frustração é real.
A melhor forma de assistir é simples: fones de ouvido ou som bem calibrado, ambiente silencioso e pouca distração. Não porque o filme seja ‘difícil’, mas porque ele foi desenhado para modular percepção. Ver de qualquer jeito enfraquece a proposta. E isso talvez resuma bem o longa: ‘Undertone’ não quer arrancar gritos fáceis; quer deixar o espectador recalibrado, ouvindo a própria casa de outro jeito quando os créditos acabam.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Undertone’
Onde assistir ‘Undertone’ no Brasil?
‘Undertone’ entra no catálogo da HBO Max no Brasil em 26 de junho. A disponibilidade pode variar por região, então vale checar a página do filme no dia da estreia.
‘Undertone’ é baseado em uma história real?
Não exatamente. A trama é ficcional, mas Ian Tuason escreveu o filme a partir da experiência pessoal de cuidar dos pais durante doenças terminais, o que dá ao terror uma base emocional muito concreta.
‘Undertone’ tem muitos jump scares?
Não. O filme aposta mais em tensão sonora, silêncio e desconforto crescente do que em sustos repentinos. Quem gosta de terror psicológico tende a aproveitar mais a proposta.
Vale mais a pena ver ‘Undertone’ com fones de ouvido?
Sim. Como o desenho de som é parte central da experiência, fones bons ou uma TV com áudio bem calibrado fazem bastante diferença. Ver em ambiente barulhento reduz o impacto do filme.
Para quem ‘Undertone’ é recomendado?
O filme é indicado para quem gosta de terror atmosférico, histórias de casa assombrada com fundo emocional e narrativas lentas. Para quem busca violência gráfica ou sustos em sequência, talvez não seja a melhor escolha.

